COVID-19: Ameaça, Medo, Ansiedade, Crise…Porque não Oportunidade?

Todos os indivíduos estão sujeitos a períodos críticos, mas a maneira de lidar é que diverge de um para outro. A forma como interpretamos a situação específica e como se decide enfrentá-la, determina se a situação passa a ser ou não stressante.

O surto de COVID19 (Doença por Coronavírus – 2019) despoletado pelo novo corona vírus SARS-CoV-2 (Síndrome Respiratória Aguda Grave), atualmente em estado pandémico uma vez que está disseminado na maioria dos países em todos os continentes, está igualmente a afetar fortemente Portugal, verificando-se um crescente impressionante de novos casos de infeção e ainda longe de atingir o seu pico de propagação. Semelhante à gripe vulgar (vírus Influenza) considera-se de contágio mais rápido e com maior gravidade (cerca de 8 a 10 vezes mais forte que a gripe vulgar). De fácil contágio entre crianças, jovens, adultos e idosos afeta com maior gravidade particularmente as pessoas mais idosas, os imunodeprimidos e com co-morbilidades com outras doenças graves, estimando-se uma mortalidade de cerca de 4% da população infetada. Por estas razões o surto de COVID19 é considerado uma ameaça global, sendo natural que represente uma fonte de stress para os indivíduos e para as populações.

Reconhece-se que o stress é uma alteração global do nosso organismo para adaptar-se a uma situação nova ou às mudanças de um modo geral, procurando adaptar-se e ajustar-se às pressões internas e externas. É após a vivência de uma situação muito exigente, que os mecanismos normais de adaptação e resolução de problemas, normalmente, não têm êxito, resultando num desequilíbrio psicológico (com sentimentos de ansiedade, medo, culpa, raiva, impotência) e diminuição do funcionamento adaptativo podendo determinar a crise psicológica.

O surto de COVID19 constitui uma Ameaça porque dá conta de um mal não controlado que tanto nos inquieta e limita, não se conhecendo bem a sua origem, os mecanismos de propagação, contenção e erradicação. Para algumas pessoas mais alarmadas e pessimistas pode até aproximar-se de uma ideia de morte em bando, se acontece a muitos outros estará muito próximo de me acontecer a mim.

E é num mundo tão imediato e certo de incertezas com demasiada perceção de controlo sobre o incontrolável que habituamos-nos a elevar demais a fasquia das expetativas, julgando ter domínio sobre quase tudo o que nos acerca. Quando nos deparamos com tal ameaça à sobrevivência, este mal desgovernado e assolador, inabalável, silencioso e implacável faz estremecer as nossas necessidades básicas de conforto e segurança. E é então que desperta em nós a vulnerabilidade, tradução da perceção de estar-se sujeito a um perigo de natureza externa sobre a qual não temos controlo, promotor para muitos de medo e para outros de uma ansiedade vil, desesperante e agonizante.

Assim é a ansiedade que encontra no stress um dos maiores aliados para se desenvolver. Não raras vezes assim é percebida e aumentada, outras há que é evitada, negada, omitida e até gozada. Suscita nas pessoas comportamentos tão absurdos que até faz atropelar o vizinho nas curvas ao supermercado, reforço do egoísmo que nos habituámos a alimentar na impessoalidade que nos assiste. Ou noutros movimentos que existem, tentativas vãs e fúteis de parecermos altruístas aos olhos de um outro, seja para impressionar e obter gostos de uma valorização narcísica que nos alimenta o ego e apazigua, seja para falsas afirmações de ideais oportunistas, negociatas piratas e agiotagens especulativas, ou estranhos apelos de visibilidade comunitária, esforços tremendos de afirmação social.

Criam-se grupos de mensagens, correntes de informação dúbia, falsas notícias, alarmes persecutórios que, na sua maioria, fazem disparar mais os medos, as histerias e as ansiedades já galopantes. Há ainda espaço para reinventar-se piadas sobre o problema desvalorizando o que não se controla, pretendendo disfarçar dor com um humor desproporcionado. Em muitas circunstâncias, as estratégias de coping habitualmente utilizadas tornam-se então insuficientes e, consequentemente, como forma de lidar com a situação adversa, pode ser desencadeado todo um conjunto de reações cognitivas, emocionais, comportamentais e fisiológicas, sinais de uma reação de stress desadaptativo.

Mas também é da Ameaça e do Medo que nasce a Oportunidade. De enfrentarmos positivamente tão sério desafio, resistindo com resiliência, fortes como comunidade, procurando compreender os factos com mais verdade e conhecendo melhor os riscos, confiarmos na comunidade científica e, reconhecendo o que se controla, pensarmos e agirmos concertadamente nos cuidados e medidas a adotar, por mais duras ou obsessivas que essas mesmas pareçam ser. Assim nos vamos adaptando às mudanças que se impõem celeremente e assim resistiremos mais fortalecidos e com mais recursos. Para tal urge estimular o coping adaptativo mobilizando os esforços para lidar com as situações de dano, ameaça e desafio.

Parece-nos por isso importante limitar o consumo da comunicação social, evitando ler, ouvir ou ver notícias que nos façam ficar ansiosos, deprimidos ou angustiados. Antes defendemos a pesquisa de informação de fontes oficiais e fidedignas (Direção-Geral de Saúde e Organização Mundial de Saúde), procurando acompanhar as atualizações com maiores intervalos de tempo para não elevar o stress. Pois nestas alturas e como tão bem ilustra um paciente, “panicar” é já o descontrolo e a ruína. Alimentando mitos ou cultivando o medo e o pânico apenas resulta em desesperança e fragilidade entravando a ação para a superação. De facto se percecionarmos a situação ameaçadora de forma realista desenvolvemos maior probabilidade de mobilizar recursos adequados no sentido de restaurar o equilíbrio. Pelo contrário a perceção distorcida do evento stressor conduzirá à ineficácia das tentativas de resolver o problema e restauração do equilíbrio.

Parece-nos fundamental conhecer mais sobre a doença, sobre os sintomas, os tipos de contágio, ficando melhor preparados para a enfrentar, para empreender consistentemente os cuidados a adotar. É também por isso que consideramos de enorme importância dar a conhecer às nossas crianças a informação necessária para que melhor entendam o que se passa à sua volta, para que a mais inusitada das medidas lhes façam sentido, para que na sua construção de realidade concebam que os cuidadores lhes querem bem e detêm uma força extraordinária que os securiza e legitima para redobrar os cuidados face a este inimigo invisível. Explicar à criança a verdade, que esta é uma doença respiratória grave que se pega muito rapidamente, que precisamos fazer muitos cuidados para nos protegermos e não apanharmos a doença nem passarmos a doença a mais ninguém. Que devemos levar a doença muito a sério porque pode matar especialmente os mais velhinhos e fracos e as pessoas com doenças graves, mas que felizmente a maior parte das pessoas recupera da doença. Por isso temos todos de fazer um enorme esforço, muita coisa está a mudar e nós vamos acompanhando e juntos continuaremos fortes a enfrentar a adversidade.

É então tempo de cuidarmos de nós, dos outros e redobrar cuidados. Lavamos e desinfetamos as mãos sempre que entramos e saímos de casa, descalçamos e mudamos de roupa quando entramos em casa. Desinfetamos as mãos quando entramos e saímos do carro ou dos transportes públicos. Lavamos as mãos antes e depois de comer, antes e depois de utilizar a WC, antes e depois de entrar num comércio. Tossimos e espirramos para o antebraço. Não cumprimentamos com contactos físicos e podemos sempre aprender com os mais pequeninos da creche e infantário que nos mandam beijinhos, abraços e “passou-bens” com gestos manuais à distância. Salvaguardamos uma distância de segurança de 2 metros de outras pessoas. Evitamos aglomerados de pessoas em qualquer circunstância (parques, jardins, cafés, restaurantes, shoppings, associações…). Não levamos as mãos à boca, ao nariz, aos olhos, ou ouvidos. Não visitamos os amigos nem a família alargada, especialmente os mais velhinhos e fracos ou com doenças, mas com eles devemos manter contacto telefónico para assim reduzir distâncias e confortar. Procuramos assegurar um bom sono, bebemos água ao longo do dia e mantemos uma alimentação saudável com destaque para os verdes e fruta, estimulantes das defesas do organismo.

Respeitamos o esforço de todos e as medidas de proteção e segurança recomendadas, por isso procuramos nos adaptar ao isolamento. Não vamos à escola mas continuamos a aprender em casa. A comunicação nas redes sociais pode ser muito importante para estimular os contactos sociais durante o isolamento, devendo privilegiar-se o positivismo, os esclarecimentos legítimos, a entreajuda e partilha de informação útil para fomentar as boas práticas e prevenir o contágio. É fundamental valorizar os casos positivos, as recuperações e as histórias de sucesso.

E viver o isolamento dentro de quatro paredes não é certamente tarefa fácil por isso parece-nos fundamental estimular uma boa ocupação de tempo. Além dos trabalhos escolares a realizar, e do acesso às plataformas que existem na internet de estímulo e consolidação das aprendizagens, também é precioso o tempo para brincar, sozinhos e em companhia, de faz de conta e/ou com brinquedos, jogar jogos lúdicos, de associação e lógica, de tabuleiro em família (damas, xadrez, mikado, jenga, monopólio), jogos de consola e computador, ver tv, séries, desenhos animados, sessões de cinema em casa com pipocas. Ler um livro, contar histórias, ver fotografias, escrever uma história, um diário, ou legendar uma banda desenhada. Ouvir música, cantar, dançar. Desenhar, pintar e colorir mandalas. Realizar manualidades, trabalhos com plasticinas, barro, decorar caixas, em gesso ou papelão. Fazer um bolo em família, ajudar em pequenos passos nas refeições. Apoiar nas tarefas de limpeza e arrumação da casa. Participar nas rotinas valorizantes, como fazer a cama, arrumar o quarto, por a roupa para lavar, colocar e levantar a mesa para as refeições. É também muito importante estimular a atividade física. Saltar à corda, realizar alongamentos, exercícios estáticos, exercícios respiratórios, relaxamento ou meditação e, se possível, pequenas caminhadas em família no exterior (evitando o contacto com outras pessoas). É ainda importante refletir e promover formas positivas de partilhar os pensamentos e expressar sentimentos como o medo, a tristeza, a raiva ou ansiedade. O importante não é apenas o que acontece, mas como a pessoa perceciona e sente o evento. E compreenda que as crianças quanto mais inseguras estão, mais atenção exigem. Sejamos tolerantes, compreensivos, dediquemos atenção positiva, procuremos informar e tranquilizar as crianças com carinho e mensagens positivas. A segurança dos pais refletir-se-á nas atitudes das crianças.

As situações de perigo, de ameaça e de crise podem então ser interpretadas como oportunidades para testarmos as nossas fraquezas e crescermos no processo de mudança. Entenda-se crise como um estado temporário de transtorno e desorganização dos indivíduos. Se bem que pode evoluir negativamente quando os recursos pessoais e sociais estão diminuídos e a intensidade do stress percebido pela pessoa ultrapassa a capacidade de adaptação e de reação ao evento, também pode evoluir favoravelmente conduzindo a um crescimento pessoal, ao estabelecimento de novos equilíbrios e ao reforço do individuo na capacidade de lidar com problemas.

E assim face à Ameaça e ao Medo percebidos constitui-se a Oportunidade, de reforçar os laços familiares, fortalecer a comunicação e o sentimento de proteção e segurança, aumentando os recursos de coping adaptativo procurando aliviar as ansiedades e a angústia, para adaptar, resistir e superar o desafio que esta ameaça tão real e global representa. É certo que não o desejamos desta forma mas talvez se esteja a oferecer um momento oportuno para abrandar e valorizar o que de mais importante há na vida. O Amor, para o próprio, para o próximo e solidariamente com os outros, faz-nos bem, estimula a saúde e a felicidade.

Deixamos um forte abraço a todos os doentes que se encontram internados e em vigilância com votos de rápidas melhoras, recomendando que mantenham os contactos à distância com os amigos e familiares, estimulem expetativas positivas e realistas e mantenham vivas as memórias das experiências e lições aprendidas do que já superaram. Outro valente abraço enviamos aos profissionais de saúde que lutam incessantemente por defender o sistema e proteger os seus doentes. Tenham também eles especial atenção ao burnout entre os profissionais e, nos sinais de alarme, procurem ajuda.

Nós por cá, por entendermos que a saúde mental não pode ser desvalorizada, por prestarmos um apoio especializado nesta área e sendo este um contexto que desperta a crise psicológica com o agravamento do stress, das ansiedades e angústias das pessoas face a esta nova ameaça, manteremos o funcionamento, até orientações ou justificação em contrário. Mas sempre atentos para a segurança dos nossos pacientes e de nós próprios, informamos que alargámos as medidas do nosso já Plano de Contingência face ao surto do COVID19. Ajustámos os horários de funcionamento e reduzimos o número de marcações diárias, permitindo tempos de descompressão e desinfeção entre cada consulta e diminuindo o número de clientes na receção, praticamente individualizando o atendimento do cliente e por especialidade no espaço interior da clínica. Priorizamos as marcações mais urgentes e adiamos as menos urgentes.

Apelamos à compreensão de todos e aproveitamos para pedir aos pacientes com marcação agendada e que apresentem qualquer sintoma ou tenham tido contacto com algum doente confirmado ou com suspeita de infeção, que sejam responsáveis e cancelem a marcação de consulta.

Reconhecemos assim que o surto de COVID19 representa uma verdadeira e séria Ameaça à resiliência e capacidade de superação de cada um de nós, despoleta Medo mas também desperta verdadeira Oportunidade de crescimento pessoal e de uma vida mais salutar em comunidade!

Estimados amigos, façam o favor de redobrar os cuidados e mantenham uma perspetiva positiva!
Ao vosso dispor,

Nuno Moura: Psicólogo Clínico e Psicoterapeuta / Diretor Técnico da Clínica MentalMente4PSI

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