Um Novo Regresso às Aulas…

O regresso às aulas faz-se esta semana, habitualmente traz entusiasmo a muitos alunos e alívio para muitas famílias e educadores, mas não raras vezes também acarreta reações de stress e ansiedade.
 
Por força da pandemia por coronavírus vivemos no último ano e meio épocas de alternância entre o ensino à distância e o ensino presencial, favorecendo-se um balanço reflexivo.
 
No decorrer dos últimos anos tem aumentado a opção pelo ensino à distância. Com a pandemia, pela necessidade de evitar deslocações e aglomerados de pessoas, impôs-se esta opção como escolha obrigatória de ensino em épocas de confinamento, sendo a competência educativa transferida para o abrigo familiar, tendo sido acelerado o processo de digitalização da educação em virtude da crise pandémica. Mesmo com muitas limitações foi possível que milhares de estudantes dessem continuidade aos estudos no conforto das suas casas durante os confinamentos, e graças às tecnologias de comunicação e informação alunos e professores puderam continuar conectados e comprometidos na aprendizagem, sendo que tudo ocasionou um desafio enorme para professores, alunos, técnicos, pais e cuidadores.
 
No ensino à distância reconheceram-se múltiplas desvantagens, tais como o compromisso na comunicação dos professores com os seus alunos, assistiu-se um maior isolamento e limitação na socialização de crianças e jovens, inibição da atividade física, aumento do sedentarismo, acomodação e passividade. Nos períodos de agudização da pandemia constatou-se que a falta de apoio e acompanhamento familiar, ausência de recursos escolares, apoios fidedignos, tecnologia confiável, resultou em desigualdades importantes, quebras no rendimento e aproveitamento escolar, stress escolar e familiar, regressões e limitações nos conteúdos programáticos e involuções na situação e percurso das aprendizagens.
 
Foram muitas as crianças cujos pais não as puderam acompanhar e que ficaram entregues a si próprias, desinvestindo ou opondo-se mais abertamente à aprendizagem. Foram muitas as frustrações de constatações de verdades académicas, faltas de ajuda e impotência no auxílio que muitos professores, pais e cuidadores gostariam de ter provido aos seus educandos em tempos tão delicados.
 
Mas apesar das vicissitudes e limitações do ensino à distância foi possível também constatar alguns benefícios importantes.
 
Alguns grupos de alunos conseguiram mesmo melhorar a motivação e o empenho escolar pelo recurso à via tecnológica, acedendo a partir do conforto das suas casas, isolando fatores de tensão escolar como a situação de exposição à avaliação de outros, às frustrações reiteradas, às distrações fáceis no estímulo formal, por exemplo. Também técnicos e educadores puderam encontrar formas alternativas e bastante criativas com o intuito de promover alguma estabilidade, mais sucesso e bem-estar académico e emocional.
 
De um modo geral foi possível dedicar mais atenção à importância do estudo e promoção da saúde mental das crianças, jovens e adultos. Tem sido possível falar mais sobre saúde mental, o que já é uma conquista, refletindo-se e orientando-se sobre aspetos psicoeducacionais relacionados com a adversidade. Foi possível desenvolver-se ferramentas de auto-ajuda à distância, sinalizadores e triagens para a intervenção especializada. A reflexão e o recurso aos meios tecnológicos na dinamização da consulta psicológica e psicoterapêutica à distância. Face a incertezas e resistências iniciais, comprovaram-se recursos muito válidos à disponibilização de ajuda na crise e vias para o sucesso terapêutico. Em alguns casos mantém-se ainda a pertinência na opção virtual, oferecendo conforto face a limitações como a distância geográfica, a doença, o risco de contágio ou características psicopatológicas.
 
Em alguns grupos também se proporcionou um crescendo de responsabilidade individual e autonomia dos alunos, o que é um claro facilitador de motivação e aproveitamento académico. Muitos alunos tiveram assim de criar o seu próprio ritmo de aprendizagem, os seus horários, novos métodos e rotinas. Vários estudos evidenciaram que o ensino à distância permitiu o desenvolvimento de maior flexibilidade na aprendizagem, possibilitando uma economia de tempo considerável e melhor conciliação com os interesses individuais ou com os tempos próprios de produtividade, oportunando-se um modelo de aprendizagem mais centrado no aluno, o que reflete múltiplos benefícios associados como motivação, empenho e aproveitamento.
 
Muitos educadores e professores foram conduzidos a refletir novas formas de manter e estimular o compromisso dos alunos face à situação da aprendizagem. Multiplicaram-se a oferta de formações abreviadas, ações de informação e sensibilização na forma de webinares ou cursos técnicos com valor acrescentado, favorecendo a partilha do conhecimento, a compreensão e a investigação, possibilitando um ensino mais colaborativo. Além de que o ensino à distância também possibilitou uma melhoria generalizada das competências digitais de estudantes, professores e cuidadores.
 
Igualmente importante foi a oportunidade de conhecer melhor as reais necessidades das crianças e jovens. Pude assistir a vários relatos de pais angustiados que, tendo passado mais tempo e acompanhado de mais perto a aprendizagem dos seus educandos, aperceberam-se do real impacto das dificuldades de aprendizagem. Pais que desconheciam que os seus filhos afinal mal conseguiam ler, ou compreender bem o que liam, que não sabiam fazer contagens e cálculos matemáticos simples, ao nível de uma matemática para a vida. Nestes casos pode assistir-se a novas oportunidades para os pais compreenderem e apoiarem mais atentamente os seus filhos no estudo, reforçando-se o envolvimento dos pais na educação dos seus filhos, acompanhando mais de perto os seus progressos. Creio mesmo que muitos pais e significativos passaram também a valorizar mais o papel que os professores e educadores desempenham na vida educativa dos seus educandos. E se a crise pandémica permitiu estreitar as relações entre a família e a escola, pode contabilizar-se isso como um ganho notável.
 
Em alguns grupos de crianças com necessidades educativas especiais constataram-se conquistas importantes ao nível da motivação e aproveitamento de alunos que no conforto e segurança das suas casas ficaram mais protegidos do impacto das interações grupais negativas, da ansiedade na avaliação formal, das pressões sociais e dos estímulos à distração. Por exemplo também pude assistir a relatos de crianças mais tímidas ou com ansiedade social que tornaram-se mais motivadas e participativas nos ambientes virtuais. Crianças com défice de atenção e impulsividade aproximam-se mais dos seus interesses, distraem-se menos com os pares e obtêm mais produtividade, dispondo de mais tempo para visualizarem ou repetirem os conteúdos, quando orientados.
 
No estudo em casa, outro benefício correlacionado foi a diminuição do bullying, do racismo ou outras formas de agressão e discriminação que os alunos experimentam mais presencialmente nas inter-relações que a escola também facilita. O que resulta em menos stress e mais saúde mental das crianças e dos jovens. Também na utilização da internet aumentou a atenção que se deve dedicar ao assunto como fator protetor para evitar exposições e agressões, por uma maior disponibilização de informação, mediação e supervisão dos conteúdos nos canais de comunicação online. E já no regresso ao ensino presencial, as ainda limitações do distanciamento físico podem também vir a constituir fatores de proteção face às situações de exposição negativa em contexto de grupo.
 
É claro que o ensino presencial possibilita enormes vantagens ao nível da socialização, oferecendo-se como um contexto privilegiado de partilha de experiências e desenvolvimento, ampliando a rede de contactos e estimulando a relação humana, sendo que a relação com os professores e educadores também é mais próxima e disponível, as aprendizagens são mais participadas, consolidadas e enriquecedoras, as rotinas favorecidas potenciando a organização e responsabilidade.
 
Porém e relativamente às considerações positivas que o ensino à distância implicou, não creio que constituam uma visão simplesmente otimista, mas um natural reconhecimento que em toda a crise surgem oportunidades e é fundamental valorizar o que há de mais positivo na experiência mais adversa.
 
Penso que no primeiro confinamento assistiu-se a um enorme esforço adaptativo pela implementação rápida de um método de ensino à distância. E no segundo confinamento assistiu-se a uma melhoria muito considerável do ensino em casa, essencialmente ao nível dos recursos disponíveis e da flexibilidade no método. Depois regressou o ensino presencial e alguma normalização da vida académica com adaptações híbridas em situações de contágio ampliado.
 
A pandemia deu uma oportunidade à escola para se transformar. De um pragmatismo formal, exigente, verticalizado e rígido, poderia agora possibilitar-se um modelo mais flexível, aberto, à medida das necessidades e ritmos individualizados, mais humanizado. Em suma, uma aprendizagem verdadeiramente centrada no aluno.
 
Porque não adivinhamos o que reserva o futuro e simultaneamente parece-me que favorecemos sinais duvidosos para o outono e inverno que espreitam, neste novo regresso à escola, seria bom aplicarmos o que melhor resultou no passado, valorizando as lições aprendidas, modernizando e auspiciando uma melhoria no modelo de aprendizagem.
 
Assim ficam algumas propostas e reflexões para este novo regresso às aulas:
Mantenha-se o foco no incentivo preventivo, inclusivo e adaptativo. É um ganho evolutivo. O quanto conseguimos nos adaptar face à adversidade. Todos ganhamos, alunos, professores, educadores, técnicos, pais e significativos. Mesmo com taxas de vacinação otimizadas, o uso da máscara facial, o distanciamento físico e a desinfeção continuarão como forças na campanha para uma batalha que ainda não findou.
 
Atenda-se mais sobre a saúde mental, identificando mais precocemente necessidades e sinais de alarme psicossociais, na escola, em casa, na comunidade, partilhando informação e sensibilização, promovendo bem-estar emocional, comportamental e social, facilitando o acesso a intervenções especializadas.
 
Estimule-se a informação, a formação e o apoio nas habilidades para a vida e nos auto-cuidados. É importante estimular a responsabilidade e a autonomia e não sabemos quando vamos precisar de regressar a exigentes adversidades.
 
Pesquise-se compreensivamente as necessidades, motivações e potenciais dos educandos e alunos. Uma maneira de os cativar para a aprendizagem escolar é caminhando lado a lado com os seus interesses, aplicando o conhecimento na experiência a partir dos interesses e habilidades.
 
Reformule-se os conteúdos e métodos de avaliação. Aprendemos melhor por modelagem e significância. A avaliação de conteúdos pode ser mais à medida da importância das aquisições, habilidades e do interesse estimulado consoante as motivações de base, a experiência participada e o feedback ajustado.
 
Facilite-se mais aulas interativas, com conteúdos diversificados, criativos, apelativos, ao encontro das motivações dos alunos mas orientadas também para o bem-estar comum e para a aprendizagem solidária dos direitos e deveres humanos.
 
Desenvolva-se ferramentas e métodos de consulta online e mantenham-se atividades hibridas, presenciais e online, síncronas e assíncronas, como fóruns ou grupos de informação, sensibilização, discussão reflexiva e propostas práticas de trabalhos.
 
Favoreça-se a auscultação das necessidades parentais e uma participação mais ativa no binómio família-escola. Certo que todos beneficiarão.
Aos alunos, seus pais e cuidadores, professores, educadores, técnicos e auxiliares, votos de um bom regresso às aulas!
 
Nuno Moura
Psicólogo Clínico e Psicoterapeuta
Clínica MentalMente4PSI
Um Novo Regresso às Aulas…
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